Política Libertária e Cultura de Massa

 

As atividades políticas ocupavam outra parte considerável de seu tempo. Anarquista militante, formulou uma uma filosofia política anarquista, criando seus fundamentos teóricos e derivando daí várias de suas concepções posteriores.

Identificando os poderes existentes em uma sociedade como ameaça à liberdade do homem, mostrava como o anarquismo, livre de qualquer violência, era uma via de responsabilidade pessoal e solidariedade.

Ao compreender o poder como algo múltiplo, Mário Ferreira ultrapassava a concepção marxista ortodoxa de uma luta de classes na qual duas partes da sociedade estavam em conflito.

 

Sem negar a existência de grupos em conflito, o autor procura localizar a luta pelo poder em um sentido mais cotidiano e pessoal – o poder exercido entre cada pessoa.
 

A vida cotidiana em uma sociedade de massa é um de seus temas preferidos. Em sua opinião, a civilização industrial esmagou o indivíduo. A padronização do produto foi também a padronização do sujeito.

O resultado é uma diminuição na qualidade do ser humano. Nivelado por baixo, o homem perde sua capacidade de entender o mundo em seus aspectos políticos, éticos e estéticos.

Esse processo tem uma motivação política. É mais fácil dominar um povo quando destruindo seu eixo intelectual. Essa estratégia é lenta mas eficaz – é a  “invasão vertical” dos bárbaros, em contraposição à “invasão horizontal”, isto é, militar.

Os produtos culturais de massa, as febres de consumo, mas também os niilistas e os pontos de vista negativos, a seu ver, podem ser de instrumentos para minar a capacidade de um povo e facilitar a dominação de outras nações.

Militante anarquista, destilou elementos da política libertária em sua teoria da sociedade. A “invasão vertical” não se manifestava apenas na política partidária, mas sobretudo nas ações.  Mário Ferreira mostra como essa desorganização mental e social se refletia nas relações cotidianas.

Na juventude, participou de passeatas e manifestações contra Gelúlio Vargas. Foi preso e passou a tomar mais cuidado, mas a militância continuou. Em São Paulo, participava do Centro de Cultural Social (CCS), localizado no centro da cidade. Na época, o CCS era um dos poucos redutos do pensamento libertário.

O anarquismo de Mário Ferreira é uma doutrina de responsabilidade individual baseado na concepção integral do ser. Mas não era um anarquista ortodoxo. Ou melhor, o anarquismo deixou de ser ortodoxo e ganhou uma doutrina quando foi trabalhado por Mário Ferreira. Era possível conciliar uma postura correta do anarquismo com uma postura correta do cristianismo -  o próprio Mário definia-se como um “anarquista cristão”.

O aparente paradoxo se explica com sua visão do cristianismo, o exemplo da ética a ser adotada por todos.  Não via no cristianismo uma doutrina de autoridade, mas de realização do indivíduo em sua vida moral e na relação com seu semelhante. 

Aliada à sua postura crítica em relação ao poder, a concepção do cristinismo como uma concepção ética universal permitiu uma aproximação inédita entre Nietzche e a doutrina cristã. Essa nova interpretação da filosofia nietzscheana desmonta passo a passo a visão notadamente anti-cristã do filósofo alemão.

Não há incompatibilidade, explica Mário Ferreira, entre a liberdade nietzscheana, sua demolição de sistemas éticos e sua perspectiva de superação e reconstrução da sociedade e a ética cristã, entendida em seu sentido libertário.
 
Assim, a perspectiva de conhecimento total de sua filosofia reflete-se também em sua doutrina prática, ao criar uma ética libertária de tal monta capaz de conciliar, na responsabilidade individual, o cristianismo e a filosofia de Nietzsche.

 

O homem livre, jornal político e filosófico criado durante o regime militar

 

Logotipo do Centro de Cultura Social, sede do movimento anarquista em São Paulo, do qual Mário fazia parte.